Orgulho de ser roliço

Encontro em Atlanta reivindica cidadania para os obesos e propõe uma tese polêmica, a de que é possível ser gordo e estar em forma

Luciana Vicária

Um grupo de obesos dos Estados Unidos lançou uma campanha polêmica. Com o lema "É possível ser um gordo e estar em forma", a Associação Nacional para o Avanço da Aceitação do Gordo briga por um direito civil, o de manter a silhueta roliça sem se tornar alvo de preconceito. "Cuido bem do meu corpo do jeito que ele é", diz a instrutora de ginástica Jeanette DePatie. "Queremos ganhar saúde sem perder nada", afirma a dançarina Phyllis Warr. "Nem todo gordo está disposto a fazer dieta", declara a nadadora Cathy Pannone. As três americanas registram o peso na casa dos três dígitos e fazem parte da associação, que promoveu neste mês sua convenção anual na cidade de Atlanta.

A platéia do evento, que lembrava um quadro do pintor colombiano Fernando Botero, reuniu cerca de 200 pessoas com notável excesso de peso. Os discursos inflamados se justificaram. Os gordos são segregados no trabalho e na vida amorosa. Quando vão ao médico, dependendo do caso são tratados como suicidas. Nos Estados Unidos, já representam 25% da população. Pagam mais caro por seguro saúde, quando viajam de avião têm de comprar dois assentos e raramente podem freqüentar lanchonetes e restaurantes porque as cadeiras não admitem seu tamanho.

A tese de que é possível ser gordo e estar em forma não convence os especialistas, porém. É certo que a prática de exercícios físicos é saudável. "Um gordinho que sempre foi ativo está em melhores condições que um magro sedentário", diz José Alberto Cortez, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP. O obeso que se exercita tem maior facilidade de controlar o diabetes e manter o colesterol em padrões aceitáveis. "O organismo alcança um bom equilíbrio com a atividade física", diz Cortez. Mas o coração do gordo funciona com sobrecarga crônica – os magros não têm esse problema.

Mesmo quem sempre levou vida sedentária pode beneficiar-se com a atividade física. O empresário paulistano Jonas Almeida Federigh, de 62 anos, 1,75 metro e 110 quilos, é diabético e já sofreu dois infartos. "Não sou gordo, sou forte", irrita-se. Para prevenir novos problemas, Federigh pratica exercícios físicos todos os dias numa clínica de reabilitação em São Paulo. Anda durante uma hora na esteira e faz musculação e alongamento. Admite que exagera na comida, mas tenta mudar os hábitos. "Já cheguei a comer bife a cavalo no café da manhã. Troquei por fruta, suco, leite e aveia." Acalenta o "projeto" de emagrecer 10 quilos até o fim do ano.

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a vida de quem é gordo corre duas vezes mais risco que a de uma pessoa com peso saudável. "Obesidade é um problema de saúde pública seriíssimo e o combate tem de ser forte", diz Carlos Eduardo Negrão, diretor da Unidade de Reabilitação Cardiovascular do Instituto do Coração, em São Paulo. Um cuidado importante, alertam os médicos, é não confundir o combate à obesidade com a obsessão pelo padrão magérrimo. Gordinho é uma coisa, obeso é outra. Considera-se obesa a pessoa com Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30. Esta está especialmente sujeita a males como o diabetes, a pressão alta e certos tipos de câncer. Para calcular o IMC divide-se o peso, em quilos, pela altura elevada ao quadrado, em metros. Alguém com 1,80 metro e 95 quilos não é considerado obeso, embora esteja além da faixa desejável (IMC entre 20 e 25). "Uma perda parcial de peso pode levar a um ganho enorme", diz o endocrinologista Simão Lottenberg, do Hospital Albert Einstein.

Confundida com preguiça, a aversão dos gordos à ginástica tem uma razão simples. O excesso de peso torna penosa qualquer atividade física, e os obesos, ao longo da vida, relacionam exercícios à fadiga e ao desconforto. Isso reforça a inatividade. "Fui a um congresso no Exterior em que os médicos eram convidados a colocar uma armação que lhes acrescentava 10 ou 20 quilos, para saber como os gordos se sentem. É sufocante", diz o endocrinologista Geraldo Medeiros, presidente do 9o Congresso Internacional de Obesidade, que se realiza em São Paulo nesta semana.

Se há um dado positivo da iniciativa dos obesos em forma, é o de quebrar esse círculo vicioso. A associação criou um conjunto de dicas para os gordos não se sentirem segregados nas academias (leia o quadro). O professor de ginástica carioca Fernando Vieira, o Fofão, de 38 anos, propaga esses ensinamentos. Obeso com 1,78 metro e 140 quilos (IMC 44), o professor foi reprovado em entrevistas de empregos de diversas academias porque estava acima do peso. Não desistiu. Hoje suas aulas de step e street dance são sucesso de público. "Muitos gordinhos preferem minhas aulas porque ficam mais à vontade", conta. Nelas, Fofão dá dicas que só mesmo um gordo daria a seus semelhantes. "Não fique se pesando toda hora. Concentre-se na perda de medidas, no bem-estar, nos pés desinchando." O médico americano Michael Dionne, aplaudido de pé na convenção dos obesos em Atlanta, resume assim os conselhos aos gordinhos: "Esqueça o excesso de peso e faça exercícios pensando em seu sorriso, seu charme, no que faz de você uma pessoa especial".

Texto retirado Revista Época

26/08/2002

O manual dos obesos na academia de ginástica

Evite academias que tenham como mote o culto ao corpo. Prefira as pequenas, em que o exibicionismo é menor

Prefira horários em que a academia não esteja lotada (normalmente o pico é das 18 horas às 20h30)

Se possível, convença um colega a se matricular com você. Isso evita a desistência e ajuda a definir horários

Inicie com exercícios leves e não se espelhe no magro a seu lado. O primeiro mês é o mais difícil de vencer

Prepare-se psicologicamente antes de se matricular. Leve na brincadeira piadinhas e comentários maldosos dos colegas

Comece em casa. Suba e desça escadas com freqüência e evite pedir a familiares que façam por você tarefas que exigem locomoção