Gorda sim, e daí?

Escritora americana critica a ditadura da magreza e diz que é possível ser gorda, feliz e saudável

Fernando Luna

Marilyn Wann tem 32 anos, 1,64 metro de altura e 120 quilos. No dia 26 de outubro de 1993, essa americana que vive em San Francisco sofreu duas decepções que mudariam sua vida. Seu namorado confessou ter vergonha de apresentá-la aos amigos. Poucas horas depois, por causa de seu corpanzil, uma companhia de seguros se recusou a aceitá-la como associada. "Obesidade mórbida" foi a justificativa técnica. Marilyn partiu para o contra-ataque. Em vez de se trancar em complexos de rejeição ou em salas dos Vigilantes do Peso, criou um jornal alternativo desavergonhadamente batizado como Fat!So? (Gordo! E daí?, um trocadilho com fatso, "gorducho" em inglês). Fat!So? fez muito sucesso. No final do ano passado, virou um livro homônimo. Ah, sim, aquele namorado virou ex e Marilyn conseguiu ser aceita em um plano de saúde — embora tenha de pagar mensalidades quatro vezes mais caras do que as de uma pessoa magra. Em entrevista a VEJA, ela fala sobre os preconceitos contra os gordos e sobre o prazer de ter um corpo avantajado.

Veja — Atualmente, a grande promessa dos tratamentos para emagrecer é o Xenical. Qual a sua opinião sobre o novo remédio?

Marilyn — Acho preocupante tomar um remédio para ser aceito socialmente, ainda mais quando se sabe que existe uma indústria de emagrecimento estimada em 40 bilhões de dólares. A publicidade costuma vender seus produtos criando pontos fracos em seus consumidores potenciais e prometendo resolver esses problemas. No caso, ela se esforça para nos fazer crer que nossos corpos são inadequados. Os laboratórios farmacêuticos ganham milhões de dólares com qualquer comprimido que criem, ainda que o medicamento não faça ninguém perder peso ou não seja totalmente seguro. Faz parte da vida social criar sistemas de opressão. Foi assim com negros e gays, que durante anos e anos tiveram de ouvir discursos, inclusive supostamente científicos, falando sobre sua inadequação ou inferioridade. Diversos movimentos civis lutaram e lutam ainda hoje para quebrar esses sistemas. Agora existe essa unanimidade em relação ao que é o corpo desejável. Não se aceita que uma pessoa gorda possa estar feliz, que simplesmente esteja satisfeita com o próprio corpo. Se todos têm de ser magros, isso é opressão.

Veja — É hora de lutar pelos direitos dos gordos?

Marilyn — Já estamos atrasados! No auge do movimento negro, havia 22 milhões de afro-americanos nos Estados Unidos. Quando a lei que garantia os direitos dos deficientes físicos foi aprovada pelo Congresso americano, havia 49 milhões de deficientes. Ora, o governo considera que 97 milhões de americanos estão "acima do peso". Somos a maioria. Podemos nos rebelar! É um absurdo que tanta gente concorde em ficar se sentindo mal. Seria muito mais simples se cada um gostasse de si mesmo do jeito que é. Os gordos não percebem o tipo de discriminação a que estão submetidos. Tem quem prefira perder uma perna a ser gordo. Quem sofre uma amputação ao menos tem a simpatia dos outros. Ninguém se sente culpado por perder uma perna, apenas tem de enfrentar alguns desafios práticos no seu cotidiano. Mas, se você é gordo, a culpa é sua.

Veja — E não é?

Marilyn — Nem sempre é verdade que o gordo é gordo porque come muito. Os genes costumam determinar se uma pessoa será gorda ou não. Existe uma variação de peso específica para cada indivíduo. Se você emagrecer abaixo de determinado limite, seu corpo vai achar que você está passando fome e se defenderá, diminuindo a queima de gordura. Sabe-se que não existe um peso ideal, mas uma faixa de peso ideal. Se você só comer pizza e levar uma vida sedentária, ficará no topo da sua faixa de peso e talvez tenha de fazer algo extremo, como uma dieta radical. Se você se alimenta e se exercita, como eu faço, ficará no nível mais baixo da sua faixa de peso. Emagrecer além do limite natural é quase impossível. Não são apenas os gordos que sofrem com esses padrões de beleza. Muita gente magra acha que não é magra o suficiente, ou que alguma parte de seu corpo é feia, ou vive com medo de ganhar uns "pneuzinhos". Não é saudável aceitar isso. Nem que seja pelo bem das crianças gordas, que não fizeram nada de errado e sofrem com preconceito e piadas.

Veja — Mas o excesso de gordura pode causar sérios problemas à saúde.

Marilyn — Só que é perfeitamente possível ser gordo e saudável. Assim como é possível ser baixo e saudável. Criou-se uma espécie de superstição em torno da gordura. Se você é gordo, nunca se casará, nunca terá um emprego, nunca terá uma vida sexual satisfatória. Freqüentemente, os gordos adoecem não por causa da gordura, mas sim pelo stress, pela opressão a que são submetidos. Ninguém assume que está incomodado com a gordura, dizem que estão preocupados com nossa saúde. Ora, ninguém deixa de sair com uma pessoa porque ela tem pressão alta. De qualquer maneira, não tenho pressão alta, meu colesterol é ótimo e meu açúcar está no nível certo. Tenho uma alimentação balanceada, como legumes e verduras, faço exercícios três vezes por semana e não fumo. Então, não me venham dizer para fazer regime.

Veja — E as dificuldades práticas que os gordos enfrentam no dia-a-dia?

Marilyn — Os aviões, por exemplo, não são adequados para pessoas altas nem para gordos. Há muitos problemas de acesso e acomodação. A maioria dos gordos acha que o erro é deles, que não são magros o bastante para caber na poltrona de avião. Em ônibus também não há assentos grandes o suficiente para os gordos. Cinemas e teatros costumam ser problemáticos. Cadeiras com braços fixos impedem os gordos de sentar. Não queremos nenhum tratamento especial, apenas o direito de ir e vir. Se isso sai um pouco mais caro, é o preço que se paga para que todos tenham direitos iguais. Foi o que os deficientes físicos conquistaram. Só que ninguém gosta de gordos. Para que fazer cadeiras especiais se eles podem emagrecer? Nós temos de exigir nossos direitos.

Veja — Alguma vez em sua vida a senhora fez dieta para emagrecer?

Marilyn — Nunca, nem na adolescência. Nunca tive raiva de ser gorda. E sem essa raiva, que é a principal motivação para emagrecer, nunca fiz regime. Meus pais me ensinaram que dieta é um desperdício de dinheiro. Eu nunca fui de comer muito. Além disso, cresci achando que era gorda demais para sonhar em ser magra. O que era uma bobagem, porque quando eu tinha 18 anos pesava 72 quilos, o que não é muito. Hoje eu peso 120 quilos e continuo comendo a mesma quantidade que comia. Não estou fazendo nada errado. Olho para minha mãe e ela é do mesmo tamanho que eu. Nós duas temos o mesmo tipo de corpo da minha avó. É normal na minha família.

Veja — A senhora nunca se sente culpada por comer tudo o que tem vontade?

Marilyn — Na minha alimentação do dia-a-dia, não, porque tenho uma dieta balanceada. Guloseimas, do tipo biscoitos, me deixavam culpada, sim. Só que eu não quero viver em um mundo onde seja proibido comer biscoitos. Um biscoito não é o diabo. Como eu nunca fiz dieta, nunca me proibi de comer coisas gostosas. Por isso nunca tive vontade de devorar um saco inteiro de biscoitos.

Veja — A senhora é consumidora de alimentos e bebidas dietéticos?

Marilyn — São horríveis, artificiais demais. Os fabricantes até nos tentam convencer de que são saborosos. Anunciam: "É um milk-shake delicioso". Nem sequer é milk-shake de verdade, quanto mais delicioso! É um pó abominável com água.

Veja — Durante a infância e a adolescência a senhora se incomodava por ser gorda?

Marilyn — As crianças podem ser cruéis. Não apenas meus coleguinhas faziam piadas como nenhum adulto jamais me disse que as outras crianças estavam erradas. Minha mãe é gorda. Ela me falava para ignorar as provocações, mas nunca me disse que eles estavam errados, que eu era bonita. Ela simplesmente não sabia disso. Fazendo meu jornal Fat!So?, pude ajudá-la a entender que não precisava sentir vergonha de seu corpo.

Veja — Como a senhora superou o complexo que tinha por ser gorda?

Marilyn — Foi um longo processo. O gordo sofre pequenas frustrações no dia-a-dia. A maioria não percebe quando é maltratada. Ele se sente mal como indivíduo, sem se dar conta de que é um problema maior. Acha que comeu mais chocolate do que deveria e que merece pagar por isso. Sofri um baque muito grande quando um ex-namorado disse que tinha vergonha de me apresentar aos amigos dele e quando meu agente de seguros se recusou a renovar minha apólice por causa do meu peso. Fiquei furiosa. Foi uma explosão de infelicidade. Percebi que deveria resistir. Comecei a me livrar dos complexos e vergonhas. A primeira providência é assumir que você é gordo e passar a usar a palavra "gordo" para se definir.

Veja — Por que a senhora prefere usar a palavra "gordo", em vez de "obeso" ou "acima do peso"?

Marilyn — Porque é uma palavra simples. Está coberta de significados negativos, mas, se você começar a usá-la, estará tirando dos outros a arma mais poderosa que eles têm para magoar você. Só por isso já valeria a pena usar "gordo". É a palavra mais direta e mais educada para nos definir. "Acima do peso" é muito negativo, supõe que existe um peso correto. Não há, assim como não existe uma religião correta ou uma altura certa. Em geral as pessoas falam "acima do peso" achando que estão sendo delicadas. Não é culpa delas. A maioria dos gordos não quer mesmo ser chamada de gorda. É preciso rever isso. "Obeso" é um termo médico, e não acho que gordura seja doença.

Veja — O que a senhora mais gosta em ser gorda?

Marilyn — Gosto de ter um corpo poderoso, arredondado e forte. E dou abraços maravilhosos! Não quero deixar nenhum magro triste, mas um abraço de gordo é realmente uma experiência diferente. É mais aconchegante. Há quem diga que os gordos se escondem do sexo, debaixo de todas as camadas de gordura. Tolice! Se você encara a gordura como algo positivo, vai entender que um gordo tem mais superfície para ser tocada. Gosto quando estou com alguém gordo e consigo encher minha mão com ele, sem o risco de me espetar em um osso pontudo. Assim como é uma experiência estética fascinante um corpo musculoso, é também delicioso aproveitar o volume, o tato. São coisas diferentes, mas igualmente inebriantes. Foi tendo um namorado gordo que aprendi como eu era atraente. Achando um gordo atraente, entendi como alguém podia me achar atraente.

Veja — A senhora tem namorado?

Marilyn — Estou saindo com um homem maravilhoso. Ele pesa um pouco mais do que eu. Já tive também homens magros e homens musculosos. Gosto de todos os tipos, embora meus últimos três namorados tenham sido gordos. É muito encorajador estar com alguém que entende o que é ser gordo. E, sinceramente, acho os gordos muito sensuais. É incrível como as coisas mudam quando você pára de odiar seu corpo. Acaba sendo natural procurar outras pessoas gordas, sua própria comunidade, pessoas com experiências parecidas com a sua. Ajuda muito estar ao lado de quem ache que gordo é bonito ou que pelo menos não é uma desgraça. Freqüentar convenções, encontros e festas de gordos é uma ótima opção. São lugares em que ser gordo é perfeitamente normal, o que torna mais fácil o processo de auto-aceitação. Claro que não quero viver só no meio de gordos, ou só ter namorados gordos. Tenho vários amigos magros e me sinto atraída por homens magros. Mas me livrei daquele pensamento de que magro é bonito e gordo é feio.

Veja — O que a senhora diria então a uma mulher que quer perder peso para ficar mais atraente?

Marilyn — Diria para ela pegar o dinheiro que gastaria com o tratamento para emagrecer e comprar roupas maravilhosas. Se nas lojas não houver nada do seu tamanho, vá a uma costureira e encomende algo sensacional. Fazer dieta vai deixar você um pouco mais magra por algum tempo. As pessoas vão tratá-la de maneira diferente e você vai ficar irritada, já que é a mesma pessoa que era antes de perder peso. Dá a impressão de que a afeição delas não é genuína. Vale mais a pena rechear seu guarda-roupa, comprar uma lingerie especial. Celebre seu corpo deixando-o sempre bonito, explorando sua beleza peculiar sem tentar reduzi-lo aos padrões dominantes. Tenho um guarda-roupa espetacular que valoriza meu corpo.

Veja — No Brasil, o verão e as praias cobram um corpo perfeito.

Marilyn — Eu adoro usar biquíni. Se alguém não gostar de me ver de biquíni, pode olhar para o outro lado. E se eu estou de biquíni, rodeada de amigos, rindo, conversando, sem me importar com a opinião alheia, tudo isso pode acabar mudando a maneira como os outros olham para mim. Talvez até digam que eu estou bem no meu biquíni, por estar feliz, por estar confiante. A confiança nos deixa sexy. Ninguém vai me tirar o prazer de um bom mergulho, de aproveitar o sol, de me sentir bem. Se você não se sente bem no seu próprio corpo, não se sentirá bem em lugar nenhum.

Veja — O estereótipo do gordo simpático é tão irritante quanto o preconceito contra os gordos?

Marilyn — Com certeza. A única emoção aceita em um gordo é a alegria permanente, sempre entretendo os amigos e sorrindo. Seria abuso ser gordo e ter momentos de mau humor. Se os gordos demoram para se irritar, é porque foram ensinados que suas emoções não importam muito. E temos medo de que as pessoas nem falem com a gente se não formos simpáticos. Um pouco de raiva talvez seja mais proveitoso. Dizer algo como: "Ei, se você for grosso comigo eu sento em cima de você!" Talvez as pessoas comecem a nos respeitar mais.

 

Entrevista Revista Veja

10/02/1999