| Alexandre
Mansur À
primeira vista, parece contraditório. O
endocrinologista Walmir Coutinho, presidente da
Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade, Abeso, está liderando uma campanha
contra as dietas. Ele se baseia nas conclusões
de uma infinidade de congressos médicos e
pesquisas científicas. Esses estudos mostram que
os regimes para emagrecer, mesmo os mais suaves,
não funcionam. O correto, em vez de fazer
regime, é seguir uma alimentação equilibrada,
sem tabelinhas de consumo de calorias, metas de
perda de peso nem listas de proibições.
"É preciso eliminar a palavra dieta do
vocabulário médico", afirma Coutinho.
"Em geral, depois de fazer um regime de
emagrecimento, as pessoas voltam a engordar e
estão mais vulneráveis à obesidade do que
antes do tratamento." Na próxima semana, a
entidade dirigida por Coutinho inicia a campanha
Dieta Não, na qual pretende distribuir 100.000
folhetos com esse tipo de orientação para
médicos, nutricionistas e psicólogos. Numa
etapa seguinte, a campanha será estendida à
população em geral.
Veja
Por que as dietas não funcionam?
Coutinho
É simples. O paciente não pode passar a
vida toda de dieta. E como ele vai fazer para
manter o peso depois? Uma equipe de pesquisadores
alemães fez um estudo com 20.000 pessoas,
comparando um grupo que fez a dieta tradicional e
outro que procurou reeducar sua alimentação. Ao
final de dois anos, quem usou o método mais
flexível, pela adoção de hábitos alimentares
novos e mais saudáveis, chegou a um peso mais
baixo e manteve esse ganho por um tempo maior. Em
um congresso recente em Milão, vários estudos
demonstraram que se a pessoa reduzir simplesmente
a ingestão de gordura pode comer os outros
alimentos à vontade, inclusive carboidratos, e
ainda assim emagrecer. O problema é que o
brasileiro está comendo cada vez mais gordura. A
proporção de gordura na dieta dos americanos
caiu de 40% para 34% nos últimos quinze anos. No
Brasil, aconteceu o contrário. Em quinze anos, o
índice aumentou de 18% para 25% no Recife, de
27% para 34% em Curitiba e de 31% para 35% em
São Paulo.
Veja
As dietas para emagrecer mais
equilibradas, que os próprios médicos
recomendam, têm alguma utilidade?
Coutinho
É preciso eliminar a palavra dieta do
vocabulário médico. Ela já se incorporou de
tal forma ao nosso receituário que qualquer
programa de reeducação alimentar passa a ser
chamado de dieta. Devemos mudar esse conceito.
Regime restritivo, por mais ponderado que seja,
não funciona. O médico não pode limitar-se a
passar uma receita e um número máximo de
calorias para a pessoa cumprir em casa. Ele
precisa ser um educador, que ensina de que
maneira é possível preparar um alimento para
ficar menos calórico ou de que maneira a pessoa
pode substituir um ingrediente por outro sem se
sacrificar. Se você for a um churrasco, pode
comer peito de frango no lugar da picanha. E se
quiser a picanha, procure também comer batata
assada, que ajuda a criar a sensação de
saciedade e evita que você pegue uma lingüiça
depois.
Veja
Se o cliente entrar em seu consultório e
pedir uma dieta para emagrecer, o que o senhor
responde?
Coutinho
Respondo que a dieta não é o melhor
caminho para uma vida saudável. Em geral, os
pacientes já sabem disso porque 90% deles já
tentaram alguma antes de buscar ajuda médica e
conhece bem os efeitos negativos.
Veja
Se dieta não funciona, o que é uma
alimentação equilibrada?
Coutinho
O correto é comer moderadamente várias
vezes ao dia. Deve-se fazer pelo menos quatro
refeições diárias e incluir em todas elas
carboidratos como pão, arroz, macarrão e
batata. No caso das proteínas, dê preferência
a carnes não gordurosas. Evite gemas de ovo ou
laticínios gordos. Além disso, é preciso comer
alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras
e legumes, sempre que possível. E só. Nada é
proibido. Pode comer um doce de vez em quando ou
até uma feijoada no fim de semana. Quem buscar
essa alimentação equilibrada vai emagrecer.
Veja
Qual é a diferença entre as dietas para
emagrecer e essa receita alimentar?
Coutinho
A dieta tem um começo e um fim. Ela é
limitada no tempo. E, na experiência de todo
mundo, quando acaba a dieta, a pessoa volta aos
antigos hábitos alimentares errados. Aí
recupera todo o peso que perdeu e até um pouco
mais. É o efeito ioiô. Ou a pessoa faz uma
estratégia alimentar para ter um emagrecimento
sustentável, que vai ser mantido a longo prazo,
ou é melhor continuar obesa, porque sua saúde
corre menos risco.
Veja
É melhor continuar gordo do que emagrecer
rápido demais?
Coutinho
Sim, porque, toda vez que alguém emagrece
e engorda, seu organismo sofre uma série de
alterações danosas. Primeiro, a função do
coração se altera. Depois, a pessoa perde
músculos e ganha mais gordura. São distúrbios
mais prejudiciais do que a própria obesidade.
Isso foi mostrado em um estudo com ex-alunos da
Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Eles
foram divididos em três grupos: um se manteve
magro, um ficou sempre obeso e o outro fez
várias tentativas de emagrecer. Depois de vinte
anos, a maior incidência de problemas
cardiovasculares foi no terceiro grupo.
Veja
Isso não acontece com o programa de
reeducação alimentar?
Coutinho
Não, porque ele pressupõe que a pessoa
comece a identificar e corrigir os principais
erros na alimentação. E ninguém espera que
isso aconteça da noite para o dia. Os resultados
vão aparecendo progressivamente. Na medida em
que a pessoa vai aprendendo sobre alimentação
equilibrada, vai perdendo peso naturalmente, de
forma saudável. Tudo isso sem os problemas
associados à dieta, que são fome, sofrimento,
mau humor ou outros inconvenientes no
relacionamento social. Ninguém precisa ir a uma
festa e deixar de comer o que é servido.
Veja
Quais são os principais erros que se deve
corrigir na alimentação diária?
Coutinho
O principal deles é achar que fechar a
boca emagrece. Não é preciso reduzir a
quantidade de alimentos que se ingere. Pelo
contrário, numa alimentação equilibrada, a
pessoa vai passar a comer mais. A alimentação
deve ser distribuída em várias refeições ao
dia, com as escolhas certas. Pode até encher o
prato. Se for de legumes e verduras, tudo bem.
Mas o que pouca gente sabe é que também precisa
ter carboidratos em todas as refeições. Senão,
a pessoa tem uma queda nos níveis de uma
substância cerebral chamada serotonina. Com
isso, fica vulnerável a uma compulsão
alimentar. Vai perdendo o controle e acaba
cedendo. Isso geralmente acontece à noite. É o
caso de uma pessoa que fica o dia inteiro sem
comer. Ela toma um suco de manhã com um
biscoito. No almoço, só uma saladinha com peito
de frango grelhado. À tarde não come nada. Mas,
à noite, quando chega em casa, acaba assaltando
a geladeira, em busca de doces e alimentos
gordurosos. Todo o esforço vai por água abaixo.
Veja
Qual é o outro grande engano das dietas?
Coutinho
É achar que deve apenas restringir os
carboidratos, cortar pão, batata, feijão, arroz
e massas. O que se tem que cortar é gordura. O
erro típico do sujeito que quer emagrecer é
chegar ao restaurante, pedir uma picanha magra,
uma folha de alface e um tomatinho. Ele pensa que
a carne não engorda porque ele tirou a gordura
visível. Mas a carne vermelha é muito mais
gordurosa do que um peito de frango ou peixe.
Seria muito melhor se ele tivesse pedido uma
carne branca com arroz e feijão.
Veja
Combinar carne com carboidrato não
engorda?
Coutinho
Isso é mito. Todas essas restrições às
combinações são bobagens. O ideal é que o
brasileiro recupere a alimentação tradicional.
Uma refeição com frango, arroz e feijão é
mais bem equilibrada do que um hambúrguer. O
resto é bom senso: evitar ovos, queijos gordos e
leite integral. Sempre dá para tentar substituir
por leite desnatado, queijos magros ou requeijão
light.
Veja
Uma mulher com 1,65 metro de altura e 67
quilos tem peso considerado saudável pelos
padrões médicos. O que é um peso ideal?
Coutinho
O conceito do peso ideal foi praticamente
abandonado. A gente fala em faixa de peso
saudável. Para cada pessoa, de acordo com a
altura, há uma faixa considerada boa. Dentro
dessa faixa, a pessoa deve procurar um peso que
consiga manter com relativa facilidade. Ninguém
precisa ficar se preocupando em chegar a um certo
peso ideal.
Veja
E se uma atriz ou modelo, que precisa
adequar-se a um padrão estético, pedir sua
ajuda, o que o senhor faz?
Coutinho
Nesse caso, o papel do profissional
consciente é desencorajá-la a fazer regime. É
preciso fazer uma avaliação de seu padrão
físico e encontrar uma faixa de peso. Se dentro
dessa faixa a paciente quiser emagrecer um pouco,
ela pode. Mas não deve usar medicamento algum
para isso. No máximo, o médico pode apontar
alguns cuidados com a alimentação e,
seguramente, indicar um programa de exercícios.
Sempre, porém, cuidando que a pessoa não vá
passar dos limites mínimos de massa corporal. Se
tiver 1,65 metro, por exemplo, o peso mínimo é
de 55 quilos.
Veja
É difícil aceitar isso numa sociedade
que celebra o corpo esguio como padrão de
beleza.
Coutinho
A dificuldade é maior para a mulher. Ela
está sempre bombardeada pelo modelo Barbie de
beleza. E para atingir isso muitas vezes precisa
sacrificar a própria saúde. Peso excessivamente
baixo é incompatível com o equilíbrio
metabólico e hormonal da mulher. Os resultados
das dietas são muito ruins justamente porque
geram expectativas inatingíveis. Uma pessoa
chega ao consultório com 1,65 metro e 85 quilos.
O médico pega uma tabelinha de peso ideal e diz
que o paciente precisa chegar aos 55 quilos. Aí
propõe perder 8 quilos por mês. Afinal, o
paciente busca resultado rápido. É uma atitude
irresponsável. Não se pode resolver em poucos
meses um problema que se instalou no decorrer de
vinte anos. O uso de remédios para acelerar a
perda de peso, como hormônios de tireóide ou
diuréticos em doses altas, só agrava o
problema. A pessoa emagrece, mas sai em péssimo
estado, com redução do metabolismo, perda de
massa muscular e, conseqüentemente, uma
tendência muito maior à obesidade do que antes
do tratamento.
Veja
O que fazer num caso como esse?
Coutinho
É preciso definir metas mais realistas.
Às vezes, a redução de apenas 10% do peso,
mesmo para uma pessoa que está muito gorda, já
é um grande avanço. O mesmo paciente de 1,65
metro e 85 quilos se chegar a 76 quilos já terá
ganhos enormes para sua saúde. Pode até não
estar muito satisfeito do ponto de vista
estético, mas o ideal é manter essa pessoa
nesse peso por alguns meses para, só então,
tentar um emagrecimento maior.
Veja
Por que o emagrecimento escalonado?
Coutinho
Porque o corpo interpreta a perda de peso
como uma ameaça às reservas de energia que ele
acha essenciais. Quando uma pessoa emagrece, o
próprio organismo aciona mecanismos de defesa. O
metabolismo, que é a capacidade do organismo de
gastar energia, diminui em 25% para cada 15% de
peso perdido. Além disso, há uma enzima,
responsável pelo armazenamento de gordura no
organismo, que fica superativada. Qualquer
excesso que a pessoa coma vai ser rapidamente
sintetizado e guardado na forma de gordura.
Veja
Os médicos que ainda indicam dietas muito
rigorosas estão fora de moda?
Coutinho
As más práticas médicas têm uma
gradação imensa. Há os médicos que receitam
fórmulas de farmácias de manipulação
supostamente naturais, mas com substâncias
perigosas na mistura. Esse é um extremo. Há
também aqueles profissionais que pecam por falta
de informação. A notícia de que as dietas não
funcionam ainda precisa ser divulgada entre os
próprios profissionais.
Veja
O que o senhor acha dos inibidores de
apetite?
Coutinho
Há um abuso nesse tipo de medicamento. O
Brasil é hoje o quarto país no ranking de
consumo per capita de anorexígenos, remédios
que inibem o apetite. Perde apenas para
Argentina, Chile e Estados Unidos. Além disso,
são substâncias antigas. Há remédios mais
modernos, que dão a sensação de saciedade e
reduzem a absorção de gordura, como o Xenical.
Mas eles devem ser usados com moderação, só em
pacientes que não conseguem ser bem-sucedidos
num programa de reeducação alimentar.
Veja
Os shakes de emagrecimento funcionam?
Coutinho
Não. Os kits de dieta que são vendidos
por aí não contribuem para a mudança de
hábito alimentar. É mais ou menos a mesma coisa
que acontece nos spas. As pessoas que vão a
esses lugares para emagrecer rapidamente estão
à procura de milagres. São dietas de quase
jejum, quando a pessoa ingere apenas 300 calorias
por dia. Ela emagrece dentro de uma redoma de
vidro. Quando volta à vida real, engorda tudo de
novo.
Veja
Esse tipo de preocupação não é mais
adequado a países ricos, que realmente têm
problemas com obesidade em larga escala?
Coutinho
De jeito nenhum. A obesidade passou a ser
um problema mais sério do que a desnutrição no
Brasil. Nos últimos dezesseis anos, o índice de
obesidade entre as mulheres mais pobres saltou de
6% para 15%. Proporcionalmente, o consumo de
alimentos gordurosos está aumentando mais nas
regiões onde a miséria está sendo erradicada.
As pessoas estão ganhando acesso à comida, mas
ainda não têm educação alimentar. Comem de
modo errado e praticam cada vez menos atividade
física. O resultado é que os problemas
associados ao excesso de peso, como as doenças
cardíacas e o diabetes, também estão
aumentando. É preciso reverter essa tendência,
antes que seja tarde demais.
Entrevista Revista Veja
14/07/1999
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